Resumo
Dentre as diversas disputas de perspectivas no âmbito do Sistema Único de Saúde, encontra-se o cuidado às demandas de saúde mental e o que se entende por elas. O objetivo deste estudo foi investigar os pontos de vista sobre o sofrimento através da narrativa de usuários e profissionais, buscando compreender como o sentido atribuído ao sofrimento psicossocial dos sujeitos impacta o cuidado em saúde na Estratégia Saúde da Família (ESF). Realizou-se uma pesquisa avaliativa participativa a partir da inserção da pesquisadora principal no campo de estudo, viabilizada pela experiência de estágio na Atenção Básica no município do Rio de Janeiro. Com base em uma abordagem qualitativa, a triangulação de dados partiu da observação participante; do diário de campo; e do livro-ata das reuniões, no qual eram registrados os matriciamentos e reuniões de equipe. Os casos abordados revelaram angústias conhecidas nos serviços de saúde, que, no entanto, se encontram em um lugar social de deslegitimação por não corresponder a uma descrição nosológica pretensamente objetiva. A mediação pelo diagnóstico tornou-se capaz de conceder benefícios sociais e criar vínculos identificatórios. Questiona-se a construção de uma ordem social dependente do saber biomédico e a redução do cuidado à prescrição medicamentosa, em detrimento de tecnologias leves de cuidado que deveriam ser priorizadas na Atenção Básica. O resgate da dimensão coletiva do sofrimento subverte o uso do sistema de saúde como instrumento para a manutenção de desigualdades, abandonando ações descontextualizadas para dar espaço ao sujeito integral, restituído do conhecimento sobre sua própria dor.

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